Quando tinha 18 anos, Nellie Bly leu no jornal um artigo sobre o “problema” que eram
as mulheres que não se casavam nem tinham lhos. Ela respondeu com uma carta tão elegante e mordaz que o editor do jornal logo a contratou. Para não ficar confinada às colunas de moda e “cuidados do lar”, Nellie partiu, aos 21 anos, para Nova York à procura de emprego e foi desafiada por Joseph Pulitzer a investigar, pelo lado de dentro, um asilo mental acusado de maus-tratos às pacientes. “Eu disse que poderia, que iria e o fiz”, foi a resposta. E o fez com coragem e afinco. Hospedou-se em uma pensão, onde fingiu ter um surto, foi detida pela polícia e examinada por um juiz e por médicos. Enganou a todos, foi tachada como louca irremediável e levada ao infame “Asilo de Loucos” da Ilha Blackwell, com a esperança de ser retirada de lá ao m de dez dias. “A gente vê como faz isso mais tarde”, disse o editor, o único que sabia da artimanha. Dentro das grades do manicômio Nellie sofreu na pele, literalmente, os abusos de enfermeiras sádicas e o descaso de médicos incompetentes ou desinteressados, a quem ninguém conseguia provar a própria sanidade, já que qualquer argumento era desqualificado como mera “alucinação”.
O que mais chocou Nellie foi encontrar entre as pacientes mulheres inteiramente sãs, tais como ela, mas que não estavam fingindo-se de loucas, nem tinham a expectativa de sair um dia daquele inferno. Eram mulheres pobres, doentes, imigrantes que não fa- lavam inglês ou ainda mulheres “indesejadas” por maridos, patrões ou familiares, convenientemente internadas e esquecidas.
O relato dos seus dias no Manicômio causou indignação nos leitores e levou a uma investigação pública. Enfermeiras e médicos complacentes foram demitidos e a cidade investiu para que as pacientes tivessem uma vida minimamente digna. Foi a primeira matéria de Nellie que levou a um avanço concreto nos direitos humanos, e a ela seguiram-se outras reportagens trans- formadoras, incluindo denúncias de corrupção, tráfico de bebês e exploração de mulheres. Mais que uma desbravadora, Nellie Bly ajudou a fazer o mundo um pouco melhor, uma reportagem de cada vez.